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23/12/2015 10:00

Ex-Agente Abre a Caixa Preta da Abin

O motivo para que eu não revele tudo o que sei sobre as clandestinidades da ABIN é saber que, na Inteligência de Estado no Brasil, o estado corrupto é muito mais poderoso que o Estado Democrático de Direito. (p.292)

No desespero de salvar o mandato, a presidenta acabou por matar definitivamente a Inteligência Brasileira, extinguiu o GSI/PR, Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, órgão responsável pela assistência direta e imediata à presidência da República no assessoramento pessoal em assuntos militares e de segurança.

A Abin, desde 1999, estava ligada ao GSI, sucessor da Casa Militar da Presidência, e um dos últimos órgãos de Estado, as atividades foram absorvidas pela Secretaria de Governo.

Em outubro de 2015, a secretaria tornou-se um novo ministério, resultado da fusão entre Relações Institucionais, Micro e Pequena Empresa, Secretária-geral e Gabinete de Segurança Institucional, formando a Secretaria do Governo.

Tudo bem que a ABIN e o próprio GSI/PR não andavam bem, inclusive neste livro, em depoimento ao jornalista Claudio Tognolli, o tenente-coronel André Soares, ex-analista de contra-inteligência da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), expõe o mal funcionamento da arapongagem no Brasil. Presente de aniversário de minha esposa Jussemara, que aproveitei para ler durante nossa viagem recente.

O livro tem uma série de denúncias que vai desde o questionamento de nepotismo, sinecuras, desmandos e malversações do comando da agência e da cúpula do Sistema Brasileiro de Inteligência (SISBIN), contaminados pelos interesses dos governantes.
Grampeamentos ilegais são demostrados e os principais exemplos destacados. A Operação Satiagraha, que resultou na recente demissão do ex-delegado da Polícia Federal, Protógenes Queiroz, e a Operação Mídia, que tinha o objetivo de espionar os principais órgãos de imprensa do País.

Em um período no qual os países necessitam de uma inteligência eficaz para combater ameaças internas e externas, o Brasil se perde em interesses partidários, e podemos afirmar que o Paraná também.

Romeu Tuma Junior faz o prefácio e destaca: "Esta obra revela um outro condão da agência - aquele segundo o qual até o mais probo e preparado servidor público padece ante a questão do comando, a gestão e o direcionamento dado à produção do conhecimento, nem sempre republicano". E encerra: “ O livro é o relato de um brasileiro que quer ver um País melhor, sem que o nosso Estado de Direito (Construído a tão duras penas), continue sendo obstado por uma antologia de desmandos e malversações, eivados com milhões em verbas secretas destinadas a fins inconfessáveis”.

De modo bastante didático o livro se desenvolve apresentando os conceitos e a competência do autor para demonstrar o mau funcionamento e os desvios que vivenciou na Abin.

Aqueles que não têm noção de informações e contra-informações - que era o nome da matéria quando realizei o CFO e CAO, no século passado, ou de inteligência e contrainteligência, que é o nome atual, - devem ler com atenção estes primeiros capítulos e seus anexos.

No livro são abordados os mitos e verdades sobre a atividade de inteligência, a inteligência de Estado, as Técnicas, Ética e o Plano de “Operações de inteligência”.

A Técnica de Avaliação de Dados é bastante criticada pelo autor. Para os não iniciados, essa técnica é como os analistas de informações (inteligência) avaliam os dados brutos para a gerar conhecimento. André Soares é um analista, muito bom por sinal.

No tempo do SNI, de acordo com a fonte (ordenadas em letras) e o conteúdo (ordenados em números), se avaliava os dados e classificava, portanto, quando era A1 era certeza.

Agora, feita a avaliação, o tempo verbal é que classifica, se é uma verdade ou se seria uma dúvida. Nesse ponto é que o autor faz as críticas mais contundentes ao método. Mas a falta de ética na Abin e os desvios em prol do governo são a tônica do livro, relatados por quem integrava o sistema desde o tempo de FHC, passando pelo reinado de Lula e o primado de Dilma.

Relata como sofreu ameaças e retaliações, às vezes contornando as armações, e outras vezes sofrendo humilhações e assédio moral inacreditáveis, até as ameaças físicas que sofreu.

Os pedidos de “desculpa” da Abin. O modus operandi oficioso e os fracassos, como as organizações criminosas que proliferam no Brasil e o quanto o Brasil está desinformado sobre terrorismo que, segundo o autor, tem no Brasil um paraíso.

O desvio de verbas secretas, com uma pitada de nepotismo, e a constatação do autor de que a Abin é uma agência de inteligência que se prostitui, conforme reportagem de 2004, onde o responsável pelo FBI no Brasil por quatro anos deu essa declaração, benevolente segundo o coronel André Soares.

Antes do livro bomba, uma reportagem que escancarou as mazelas da Abin, acabaram rendendo ao tenente-coronel André Soares o indiciamento em inquérito na Polícia Federal, que está em andamento e é relatado no livro.

O episódio da demissão do General Elito e a extinção do GSI, não estão nesta obra prima, porém, são relatados pelo coautor do livro, Claudio Tognolli, em seu blog: Dilma demitiu um general para botar pau-mandado de Dirceu em seu lugar 

Essas revelações do livro de que a “inteligência” tem sido utilizada para fins partidários, quiçá criminosos até, apenas comprovam o que vemos em várias reportagens, inclusive na Argentina, outro País adepto do “bolivarianismo”. http://www.bemparana.com.br/noticia/411801/antenas-de-predio-da-defesa-faziam-espionagem-diz-jornal

Mas utilizar a estrutura estatal em prol do grupo que transitoriamente ocupa o governo, para fins inconfessáveis, não é privilégio de governos nacionais, até no pujante estado do Paraná há relatos desde o passado recente desmascarado pela CPI dos grampos ilegais, onde o detetive Razera foi o bode expiatório.
http://www.gazetadopovo.com.br/vida-publica/ex-assessor-do-governo-e-condenado-por-fazer-escutas-b04nskgo959ypb7lywmgusqj2

Até a Polícia Federal parece ter sido vítima de escutas ilegais, um dos principais métodos da “arapongagem” brasileira.
Reportagem de Marcelo Auler na revista Carta Capital, publicada em 17 de outubro, a partir de um equipamento de escuta ilegal encontrado pelo doleiro Alberto Youssef, em sua cela nas dependências da Polícia Federal, em Curitiba. Com mais de 100 horas de conversas, envolveu, inclusive, o ex-secretário de Segurança Pública do Paraná, Fernando Francischini, e o seu - na época - chefe de inteligência, delegado Wagner Mesquita, que sucedeu Francischini na SESP.

A reportagem faz várias ilações sobre o objetivo de melar a lava-jato ou de obter vazamentos privilegiados. Não entraremos nesse mérito, o que interessa é o chamado grampo ilegal e a confirmação de arapongagem que continua grassando a terra das Araucárias.
http://www.cartacapital.com.br/revista/872/a-operacao-abafa-vai-pelo-ralo-7413.html

O Departamento de Inteligência do Estado do Paraná foi hipertrofiado, dizem que mais de 70 policiais militares e civis que deveriam estar nas ruas estão bisbilhotando a vida de inimigos “políticos”, porém, não tem dado mostras de que seja melhor que a “Abin”, tão mal retratada neste livro.

O DIEP foi quem forneceu a “tese dos black blocks infiltrados” na manifestação dos professores de 29 de abril, e o pior, apresentou fotos e vídeos em coletiva para a imprensa, sendo desmentidos imediatamente, o que deixou em descrédito a Secretaria de Segurança Pública do Paraná.

Ao encerrar o livro, os autores exortam o Brasil a investigar estas atividades ilegais, essa promiscuidade de misturar arapongagem com investigação, de prejudicar o Estado em prol do grupo político que ocupa temporariamente o Governo. Lutar contra a corrupção começa nos órgãos encarregados de impedir essa corrupção, para, talvez, aí sim passar o Paraná e o Brasil a limpo.


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